Como destaca
Mallet (2014) no título do segundo capítulo de seu livro, o malte é a alma da
cerveja. E continua: "Como o caldo cria a base de toda grande sopa, o
malte fornece diversos atributos-chave que definem a cerveja como a conhecemos,
incluindo cor, sabor, corpo (...). Ao formular a quantidade de malte para uma
cerveja, o cervejeiro deve levar cada um desses fatores em consideração. As
contas de grãos variam amplamente; alguns podem utilizar apenas um tipo de
malte, enquanto outros são combinações complexas e misturas de vários
tipos."
Figura 1. Esquema ilustrativo da estrutura biológica
do grão de cevada
O malte de cevada é obtido a partir do cereal in natura,
duro e não friável¹, que passa pelos processos de maltagem: maceração,
germinação e secagem. Os principais objetivos da maltagem são:
·
Aumento do poder enzimático;
·
Alteração de aroma e sabor.
Mas um dos mais
importantes processos da maltagem é ocasionar a degradação da parede de
hemicelulose, modificando o endosperma do grão (Figura 1), tornando-o frágil o
suficiente para possibilitar a exposição do amido e das enzimas², através do
processo de moagem. Em alguns casos específicos o processo de maltagem visa
também formar substâncias corantes e aromatizantes nos maltes, principalmente
os especiais. Estas substâncias são chamadas de melanoidinas e são produtos da
ligação entre açúcares e aminoácidos através das reações de Maillard a
temperaturas em torno de 100°C.
No ambiente
controlado da maltaria o processo de maceração é utilizado para iniciar e
terminar a fase de germinação da cevada. Os principais objetivos deste processo
são limpá-la e hidratá-la. Quando a cevada chega à maltaria, possui um
teor de umidade em torno de 10-14%. A fase de maceração aumentará o nível de
umidade para 43-48%. A cevada incha e pode aumentar até 40% em volume. É
importante mencionar que a água usada no processo deve ser limpa e de boa procedência.
Um exemplo de programação de maceração típica de 40 horas e 3 mudanças de
água em uma maltaria moderna é: 9 horas de primeira imersão, 9 horas de
descanso de ar, 6 horas de imersão, 6 horas de descanso de ar, 5 horas de
imersão e Descanso de 5 horas [1].
Logo após o final
do processo de maceração tem início o processo de germinação que dura de 3,5 a
5 dias: os grãos hidratados da cevada são transferidos para uma área onde são
depositados empilhados em temperatura controlada e revolvidos frequentemente
para a correta incorporação do oxigênio, evitando a morte e consequente
apodrecimento do grão. O processo de germinação é interrompido a partir do
momento em que se apresentarem radículas (exemplo na Figura 2). Em alguns casos
existe a possibilidade de uso do ácido giberélico para acelerar a germinação
dos grãos. A giberelina é um hormônio vegetal responsável pelo crescimento do
caule e das folhas e em algumas espécies induz a germinação das sementes e
modulam o tempo de florescimento, desenvolvimento de frutos e sementes. O uso
do ácido giberélico é um tabu entre os malteiros mais tradicionais: o processo
de maltagem é visto como uma arte e o uso de artifícios para acelerar o
processo é visto por muitos como um sinal de incompetência.
Figura 2. Grãos de cevada hidratados e com
germinação iniciada. Radículas.
Como o objetivo não é o de obter uma nova planta de cevada, o
processo de germinação é interrompido através de um processo de secagem em
estufa (do termo em inglês kilning) por um dia e meio. Embora o objetivo
principal da secagem seja a remoção da umidade dos grãos, tornando-o apto para
transporte e armazenamento, é durante esta etapa do processo são obtidos também
a cor e o sabor característicos de cada tipo de malte e que se mantém o
controle enzimático, ou seu poder diastático (condição válida para secagens até
110°C).
A secagem ocorre
em duas etapas:
·
Pré-secagem: realizada a baixas temperaturas, promove a remoção da
água adsorvida nos grãos e incita enzimas a promover modificações nas
substâncias de reserva formando precursores de cor e aroma;
·
Secagem final: realizada a temperaturas mais elevadas, remove a
água absorvida até os níveis especificados de umidade no produto (4,5-5,5%), promove
a formação de substâncias de cor, aroma e sabor, inativa as enzimas e converte
o DMS em DMS livre.
Após a redução da
umidade e a remoção das radículas, o malte está pronto para ser armazenado e
comercializado.
O malte de cevada
pode ser proveniente de dois tipos distintos de plantas: a cevada de 2 fileiras,
ou cevada de primavera, e a cevada de 6 fileiras, ou cevada de inverno. A cevada
de 2 fileiras é a mais utilizada nos processos cervejeiros por possuir menor
teor de proteínas e maior teor de açúcares fermentescíveis³. A cevada de 6
fileiras é mais barata, mas, por possuir maior teor de proteínas, é mais
adequada para uso na alimentação animal. Quando utilizado na produção de
cervejas, o alto teor de proteínas pode causar turbidez.
Em síntese, as
etapas de produção do malte em uma maltaria são:
·
Seleção da cevada cervejeira;
·
Plantio;
·
Controle de qualidade;
·
Acondicionamento da cevada;
·
Maltagem: maceração, germinação e secagem;
·
Degerminação do malte seco (remoção das radículas);
·
Armazenamento;
·
Blendagem;
·
Despacho.
O malte
cervejeiro é classificado de acordo com sabor, cor e característica técnica:
Figura 3. Classificação dos maltes
Mundialmente, 87%
do malte produzido é destinado à fabricação de cerveja; 7% para a produção de
destilados e 6% para a produção de extrato.
No Brasil os
principais produtores são a Agrária, a Ambev e a Soufflet do Brasil, do
primeiro ao terceiro por ordem de market share.
Alguns dados
importantes a respeito dos maltes:
·
A formação de melanoidinas nos maltes pilsen ocorrem na faixa de temperatura
entre 78-85°C, dependendo da cor desejada (temperaturas mais altas geram maltes
com cor mais escura);
·
O malte Munique precisa de maior quantidade de aminoácidos para a
formação de melanoidinas, portanto, tem maior quantidade de proteínas e menor
extrato. Cor: 20-30 EBC;
·
A torrefação do malte é feita a partir do malte verde e em
temperaturas acima de 110°C. Neste ponto as enzimas são desnaturadas por
temperatura ocasionando um baixo poder diastático para maltes mais escuros;
·
O malte Pale Ale realça o sabor do malte na cerveja;
·
O malte Viena também realça o sabor de malte e confere uma
coloração um pouco mais escura que o Pale Ale;
·
O malte Munique não realça o sabor e aumenta a cor, tendendo para
o vermelho;
·
O malte Melanoidina é outra opção de coloração vermelha para as
cervejas, oferecendo de 60 a 90 EBC e é também utilizado para conferir sabor
defumado;
·
Malte caramelo acentua o sabor de malte.
O processo de
maltagem, a escolha do grist equilibrado de maltes e cereais não maltados...
tudo isso faz parte da arte que é planejar e produzir uma cerveja. Ficou com
alguma dúvida? Manda um e-mail pra gente: sac@cervejariaadorea.com.br. Será um prazer!
Um abraço e
lembre-se sempre: o punk não morreu!
Notas de
rodapé
¹ Passível de
sofrer fragmentação, esfacelamento; capacidade de reduzir-se a pó.
² Moléculas formadas
na camada de aleurona, que têm a capacidade de acelerar reações químicas
através da quebra de moléculas grandes em moléculas menores. Formadas em sua
maioria por proteínas. Os principais grupos enzimáticos quando se fala em
produção de cervejas são alfa, formada no processo de maltagem, e beta-amilase,
já presente nos grãos de cevada, responsáveis por converter o amido em açúcares
fermentescíveis.
³ Açúcares
fermentescíveis são pequenas moléculas derivadas das macromoléculas de amido,
produto da ação de grupos enzimáticos: glicose, frutose, maltose, maltotriose,
maltotetraose. Estas moléculas se tornarão o principal alimento para leveduras no
processo de fermentação (transformação de açúcar em álcool). Em contrapartida,
os açúcares não-fermentescíveis são as dextrinas, carboidratos não fermentáveis
de peso molecular maior que os supracitados. As dextrinas tornam-se açúcar
residual dando a sensação de corpo na cerveja.
Referências
Bibliográficas
[1] Mallet, J. (2014). Malt: a practical guide from field to brewhouse. Brewers Association. ISBN 1–938469–12–7.
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