Existe justificativa técnica para indicar um tipo específico de copo para cada estilo de cerveja ou isso é mito?
| Infográfico que apresenta os cariados copos disponíveis para degustação de cervejas |
Existe justificativa técnica para indicar um tipo específico de copo para cada estilo de cerveja ou isso é mito?
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| Belhaven Black Scottish Stout |
Quando você pensar em se autointitular cervejeiro, pense duas vezes. Será que é você quem faz a cerveja?
Antes de Louis Pasteur provar em 1871 que o processo de
fermentação alcoólica era protagonizado por leveduras vivas, os produtores de
cerveja acreditavam que o processo de fermentação, representado pela reação de
decomposição na Figura 1, era algo que ocorria de forma espontânea e, além
disso, “um presente de Deus” (o termo em inglês usado para definir o processo
de fermentação antes da confirmação da atuação do microrganismo era godisgood...
precisamos concordar que não deixa de ser!). Prova disso é que a Lei de Pureza Alemã da
Cerveja de 1516 previa a punição sob pena de confisco dos barris de cerveja
para aqueles que fabricassem cerveja com ingredientes além de água, malte e
lúpulo, sem mencionar a levedura: “(...) Além
disso, queremos enfatizar que no futuro em todas as cidades, mercados e no
país, os únicos ingredientes usados para a fabricação da cerveja devem
obrigatoriamente ser cevada, lúpulo e água. Todo aquele que intencionalmente desconsiderar
ou transgredir esta portaria, será punido pelas autoridades do Tribunal, (...)”.
Figura 1. Reação de decomposição da glicose em
etanol e gás carbônico [1]
As leveduras pertencem ao reino Fungi. São organismos
eucariontes (célula com núcleo diferenciado), heterotróficos (não fazem
fotossíntese), unicelulares e anaeróbicos facultativos. Isso significa que podem
realizar respiração celular na presença ou na ausência de oxigênio. É na ausência
de oxigênio que ocorre a reação de decomposição da glicose conhecida como
fermentação alcoólica. A fermentação ocorre com o objetivo de a levedura produzir
energia (ATP) para a sua célula. Os principais subprodutos desta decomposição são
o gás carbônico e o etanol. Alguns outros compostos podem ser formados durante
o processo de fermentação pela levedura através de reações bioquímicas. Esses
compostos, mesmo que em pequenas quantidades, geram grande impacto, positivo ou
negativo, no aroma e no sabor da cerveja: ésteres (compostos aromáticos
frutados ou off flavors de solventes), álcoois superiores (picante,
aquecimento, solvente), aldeídos (e-nonenal: papelão), diacetil (manteiga de
cinema), compostos sulfurados (dióxido de enxofre/fósforo queimado; sulfeto de
hidrogênio/ovo podre) e compostos fenólicos (cravo; medicinal). Alguns dos
fatores que influenciam a ocorrência destes subprodutos na fase de fermentação
da cerveja são: temperatura e tempo de fermentação, espécie da levedura,
composição do mosto, contrapressão, quantidade de levedura, aeração e
concentração do mosto. Os perfis esterificados de cervejas são desejáveis e
algumas das formas de se consegui-los são: produzindo mosto de grande concentração,
temperatura de fermentação mais elevada, sempre próximo da temperatura limite
indicada para a cepa da levedura e forte influência da cepa do fermento, dos ésteres
que podem produzir.
E quanto a reutilização de leveduras? A prática é
complexa e fazer a reutilização em casa é difícil. O fundo plano do fermentador
caseiro impossibilita a correta coleta da lama para posterior tratamento. Para os
cervejeiros caseiros que desejam fazer a reutilização, recomenda-se que seja
feita entre 5-6 vezes, não mais. É importante saber que a reutilização de
leveduras pode ser um processo ardiloso, principalmente do ponto de vista de
viabilidade (não confundir viabilidade com vitalidade). A viabilidade determina
o percentual de células vivas em uma cultura. Uma das formas de se determinar a
viabilidade de uma cultura é o teste de azul de metileno, assunto que será
abordado em um artigo específico para este assunto em breve.
Caso a viabilidade de uma cultura de leveduras esteja
baixa, é necessário que se considere fazer algo para melhorar o número de células
viáveis. A técnica que torna isso possível chama-se propagação e é utilizada
para multiplicar o número de células viáveis na população, importante para
produzir aumento da biomassa de leveduras. Pode ser realizada também para
adequar os inóculos para uma cerveja de acordo com a gravidade original (OG)
e/ou restaurar a vitalidade das células. Utiliza-se uma fonte de nutrientes
como, por exemplo, extrato de malte (DME) ou mosto com densidade 1.040,
aproximadamente. As células permanecem sob agitação de forma a incorporar
oxigênio e realizar respiração aeróbia, o que gera mais energia para
multiplicação celular.
É natural que ao final do resfriamento pós fervura o
mosto esteja coalhado de oxigênio; e isso é muito importante! Melhor ainda se
estiver na condição de saturação, de 10ppm. Embora o oxigênio seja o inimigo
número 1 da cerveja e a fermentação ocorra apenas de forma anaeróbica, é
durante a fase aeróbica que a levedura produz maior quantidade de energia (36-38
moléculas de ATP). É durante esta fase de maior produção de energia que a colônia
de leveduras crescerá e multiplicará nas primeiras 24h. As leveduras
cervejeiras possuem limitada capacidade de respiração e estão sujeitas a
repressão catabólica, portanto, caso a aeração seja insuficiente pode resultar
em baixos índices de multiplicação celular, atenuação incompleta e aumento de
produção e acúmulo de off flavors. O oxigênio é necessário para a
fermentação cervejeira por permitir a síntese de esteróis e ácidos graxos
instaurados. Esses lipídeos são essenciais componentes da membrana citoplasmática.
Entretanto Saccharomyces cerevisiae é capaz de crescer sob condições
anaeróbicas estritas somente quando há uma fonte exógena de esteróis e ácidos
graxos instaurados. Sob condições aeróbicas, estes compostos podem ser
sintetizados a partir de carboidratos. A aeração excessiva, no entanto,
representa um stress potencialmente letal uma vez que radicais reativos de
oxigênio (como os superóxidos e hidroxilas) representam uma ameaça potencial ao
bom desenvolvimento das futuras gerações de leveduras. A fase anaeróbica inicia
após o consumo total do O2 e a fermentação termina assim que os
nutrientes fermentáveis terminam no líquido.
A espécie de levedura mais comum usada na produção de
cerveja é a Saccharomyces cerevisiae. Esta espécie é atrelada a produção
de cervejas ale e à alta fermentação (fermentação que ocorre no topo da dorna
de fermentação). A faixa de temperatura de atividade desta levedura é 16-26°C. Esta
espécie confere aromas frutados à cerveja.
A fermentação de cervejas lager, ou baixa fermentação (fermentação
que ocorre no fundo da dorna de fermentação), é processada pela espécie chamada
Saccharomyces pastorianus. Esta espécie trabalha em uma faixa de
temperatura de 9-14°C e confere aromas florais.
Mas o pitch de leveduras pode ser feito em
qualquer quantidade? Que tipos de problemas isso acarretaria? Como já vimos, um
pitch em baixas viabilidades pode acarretar problemas de início da
fermentação, que pode até não ocorrer. E em quantidades excessivas? Este problema
é conhecido como overpitching e acarreta alta velocidade no processo de
fermentação, ocorrendo pouca liberação de gás carbônico, envelhecimento da
cultura e aumento no risco de autólise (células mortas).
Um dos grandes riscos de defasagem no pitching é a
ocorrência de diacetil como subproduto e off flavor. O diacetil é muito
conhecido por conferir aroma de manteiga de cinema, mel e creme de leite. Isso
ocorre no processo de fermentação ou por contaminação microbiológica, como por
exemplo, contaminação por pediococcus.
Posto tudo isto, respondendo à nossa pergunta inicial: o
cervejeiro de verdade é a levedura. Você é só um assistente que prepara todo o
ambiente e dá as condições ideais que ela necessita para fazer o trabalho do “enviado
de Deus”!
E não se esqueça: O PUNK NÃO MORREU!
Referências Bibliográficas
[1] MAHAN, Bruce M.; MYERS, Rollie J. (2002). Química: um curso universitário. Edgard Blücher.
São Paulo, SP.
Como destaca
Mallet (2014) no título do segundo capítulo de seu livro, o malte é a alma da
cerveja. E continua: "Como o caldo cria a base de toda grande sopa, o
malte fornece diversos atributos-chave que definem a cerveja como a conhecemos,
incluindo cor, sabor, corpo (...). Ao formular a quantidade de malte para uma
cerveja, o cervejeiro deve levar cada um desses fatores em consideração. As
contas de grãos variam amplamente; alguns podem utilizar apenas um tipo de
malte, enquanto outros são combinações complexas e misturas de vários
tipos."
Figura 1. Esquema ilustrativo da estrutura biológica
do grão de cevada
O malte de cevada é obtido a partir do cereal in natura,
duro e não friável¹, que passa pelos processos de maltagem: maceração,
germinação e secagem. Os principais objetivos da maltagem são:
·
Aumento do poder enzimático;
·
Alteração de aroma e sabor.
Mas um dos mais
importantes processos da maltagem é ocasionar a degradação da parede de
hemicelulose, modificando o endosperma do grão (Figura 1), tornando-o frágil o
suficiente para possibilitar a exposição do amido e das enzimas², através do
processo de moagem. Em alguns casos específicos o processo de maltagem visa
também formar substâncias corantes e aromatizantes nos maltes, principalmente
os especiais. Estas substâncias são chamadas de melanoidinas e são produtos da
ligação entre açúcares e aminoácidos através das reações de Maillard a
temperaturas em torno de 100°C.
No ambiente
controlado da maltaria o processo de maceração é utilizado para iniciar e
terminar a fase de germinação da cevada. Os principais objetivos deste processo
são limpá-la e hidratá-la. Quando a cevada chega à maltaria, possui um
teor de umidade em torno de 10-14%. A fase de maceração aumentará o nível de
umidade para 43-48%. A cevada incha e pode aumentar até 40% em volume. É
importante mencionar que a água usada no processo deve ser limpa e de boa procedência.
Um exemplo de programação de maceração típica de 40 horas e 3 mudanças de
água em uma maltaria moderna é: 9 horas de primeira imersão, 9 horas de
descanso de ar, 6 horas de imersão, 6 horas de descanso de ar, 5 horas de
imersão e Descanso de 5 horas [1].
Logo após o final
do processo de maceração tem início o processo de germinação que dura de 3,5 a
5 dias: os grãos hidratados da cevada são transferidos para uma área onde são
depositados empilhados em temperatura controlada e revolvidos frequentemente
para a correta incorporação do oxigênio, evitando a morte e consequente
apodrecimento do grão. O processo de germinação é interrompido a partir do
momento em que se apresentarem radículas (exemplo na Figura 2). Em alguns casos
existe a possibilidade de uso do ácido giberélico para acelerar a germinação
dos grãos. A giberelina é um hormônio vegetal responsável pelo crescimento do
caule e das folhas e em algumas espécies induz a germinação das sementes e
modulam o tempo de florescimento, desenvolvimento de frutos e sementes. O uso
do ácido giberélico é um tabu entre os malteiros mais tradicionais: o processo
de maltagem é visto como uma arte e o uso de artifícios para acelerar o
processo é visto por muitos como um sinal de incompetência.
Figura 2. Grãos de cevada hidratados e com
germinação iniciada. Radículas.
Como o objetivo não é o de obter uma nova planta de cevada, o
processo de germinação é interrompido através de um processo de secagem em
estufa (do termo em inglês kilning) por um dia e meio. Embora o objetivo
principal da secagem seja a remoção da umidade dos grãos, tornando-o apto para
transporte e armazenamento, é durante esta etapa do processo são obtidos também
a cor e o sabor característicos de cada tipo de malte e que se mantém o
controle enzimático, ou seu poder diastático (condição válida para secagens até
110°C).
A secagem ocorre
em duas etapas:
·
Pré-secagem: realizada a baixas temperaturas, promove a remoção da
água adsorvida nos grãos e incita enzimas a promover modificações nas
substâncias de reserva formando precursores de cor e aroma;
·
Secagem final: realizada a temperaturas mais elevadas, remove a
água absorvida até os níveis especificados de umidade no produto (4,5-5,5%), promove
a formação de substâncias de cor, aroma e sabor, inativa as enzimas e converte
o DMS em DMS livre.
Após a redução da
umidade e a remoção das radículas, o malte está pronto para ser armazenado e
comercializado.
O malte de cevada
pode ser proveniente de dois tipos distintos de plantas: a cevada de 2 fileiras,
ou cevada de primavera, e a cevada de 6 fileiras, ou cevada de inverno. A cevada
de 2 fileiras é a mais utilizada nos processos cervejeiros por possuir menor
teor de proteínas e maior teor de açúcares fermentescíveis³. A cevada de 6
fileiras é mais barata, mas, por possuir maior teor de proteínas, é mais
adequada para uso na alimentação animal. Quando utilizado na produção de
cervejas, o alto teor de proteínas pode causar turbidez.
Em síntese, as
etapas de produção do malte em uma maltaria são:
·
Seleção da cevada cervejeira;
·
Plantio;
·
Controle de qualidade;
·
Acondicionamento da cevada;
·
Maltagem: maceração, germinação e secagem;
·
Degerminação do malte seco (remoção das radículas);
·
Armazenamento;
·
Blendagem;
·
Despacho.
O malte
cervejeiro é classificado de acordo com sabor, cor e característica técnica:
Figura 3. Classificação dos maltes
Mundialmente, 87%
do malte produzido é destinado à fabricação de cerveja; 7% para a produção de
destilados e 6% para a produção de extrato.
No Brasil os
principais produtores são a Agrária, a Ambev e a Soufflet do Brasil, do
primeiro ao terceiro por ordem de market share.
Alguns dados
importantes a respeito dos maltes:
·
A formação de melanoidinas nos maltes pilsen ocorrem na faixa de temperatura
entre 78-85°C, dependendo da cor desejada (temperaturas mais altas geram maltes
com cor mais escura);
·
O malte Munique precisa de maior quantidade de aminoácidos para a
formação de melanoidinas, portanto, tem maior quantidade de proteínas e menor
extrato. Cor: 20-30 EBC;
·
A torrefação do malte é feita a partir do malte verde e em
temperaturas acima de 110°C. Neste ponto as enzimas são desnaturadas por
temperatura ocasionando um baixo poder diastático para maltes mais escuros;
·
O malte Pale Ale realça o sabor do malte na cerveja;
·
O malte Viena também realça o sabor de malte e confere uma
coloração um pouco mais escura que o Pale Ale;
·
O malte Munique não realça o sabor e aumenta a cor, tendendo para
o vermelho;
·
O malte Melanoidina é outra opção de coloração vermelha para as
cervejas, oferecendo de 60 a 90 EBC e é também utilizado para conferir sabor
defumado;
·
Malte caramelo acentua o sabor de malte.
O processo de
maltagem, a escolha do grist equilibrado de maltes e cereais não maltados...
tudo isso faz parte da arte que é planejar e produzir uma cerveja. Ficou com
alguma dúvida? Manda um e-mail pra gente: sac@cervejariaadorea.com.br. Será um prazer!
Um abraço e
lembre-se sempre: o punk não morreu!
Notas de
rodapé
¹ Passível de
sofrer fragmentação, esfacelamento; capacidade de reduzir-se a pó.
² Moléculas formadas
na camada de aleurona, que têm a capacidade de acelerar reações químicas
através da quebra de moléculas grandes em moléculas menores. Formadas em sua
maioria por proteínas. Os principais grupos enzimáticos quando se fala em
produção de cervejas são alfa, formada no processo de maltagem, e beta-amilase,
já presente nos grãos de cevada, responsáveis por converter o amido em açúcares
fermentescíveis.
³ Açúcares
fermentescíveis são pequenas moléculas derivadas das macromoléculas de amido,
produto da ação de grupos enzimáticos: glicose, frutose, maltose, maltotriose,
maltotetraose. Estas moléculas se tornarão o principal alimento para leveduras no
processo de fermentação (transformação de açúcar em álcool). Em contrapartida,
os açúcares não-fermentescíveis são as dextrinas, carboidratos não fermentáveis
de peso molecular maior que os supracitados. As dextrinas tornam-se açúcar
residual dando a sensação de corpo na cerveja.
Referências
Bibliográficas
[1] Mallet, J. (2014). Malt: a practical guide from field to brewhouse. Brewers Association. ISBN 1–938469–12–7.